Ao menino da rua Judite

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Hoje eu escreveria sobre Os meninos da rua Paulo, um livro que merece ser devorado com a mesma intensidade feroz com que os garotos de Budapeste entraram em guerra para defender seu terreno baldio. Pensava nas epopeias juvenis, na lealdade e no respeito que se constroem coletivamente durante a infância. Queria falar de Nemescek, o miúdo e bravo personagem que me levou às lágrimas. Faria uma analogia entre as descobertas adolescentes e a possibilidade de nos redescobrirmos a cada novo ano. Não deu tempo. Antes que os rojões anunciassem a entrada de 2014, veio você. Não diria miúdo, mas igualmente bravo.

Você nasceu na cozinha, o cômodo mais alegre, movimentado e aconchegante da casa. O preferido dos seus pais. Os vizinhos da rua Judite mantiveram os ouvidos atentos, se emocionaram ao ouvi-lo chorar pela primeira vez. Chegou pulsando, potente, grande. Foi trazido à luz — e trouxe luz — com a ajuda de mãos sensíveis e competentes. Sua mãe te teve nos braços e vocês conversaram. Seu pai te teve nos braços e vocês silenciaram. Choraram todos. Ela é forte, Bento. Ele é bom. Ambos são generosos e vocês três formam um trio valente que, como os meninos da rua Paulo, vai estabelecer seu código de conduta particular, baseado no amor.

Você tem um irmão respeitoso e uma irmã apaixonada. Tem avós cuidadosos e uma bisavó sábia. Dezenas de tios, primos e amigos estavam à sua espera. A verdade é que tudo o que eu disser sobre o momento da sua chegada ao mundo é pouco. Talvez por isso eu tenha tão pouco a dizer. Sabe, às vezes, as palavras são pequenas demais diante da imensa beleza que os olhos testemunham. Mas senti que me cabia ao menos o esforço destas breves palavras.

O amor, Bento, é um abraço grande o suficiente para envolver todos os seres do universo. E gratidão é quando o coração reconhece que ganhou um presente. Eu te amo e te agradeço. Se algum dia você duvidar de milagres, olhe para si mesmo. A vida é um grande milagre — e esse não é o tipo de frase que eu escreveria sem um bom motivo. Uma última coisa: os adultos costumam achar que sabem mais do que as crianças. Perdoe-nos por isso. Daremos o melhor de nós para aprender com a sua sabedoria.

Seja bem-vindo. Tome seu tempo.
A maior das batalhas você já venceu!

Foto: Seu primeiro dia na rua Judite (e no mundo)

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Flores

Adentrei-me na minha alma
(Daniel Lima)

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Fotos: Flores da Solar, de muito perto

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As histórias que os prédios contam

Mire e veja: os edifícios têm algo a dizer. Arquitetura e literatura têm mais do que um sufixo em comum. O arquiteto e urbanista Luís Antônio Jorge está no centro de São Paulo para ler os enredos e as personagens embrenhados no concreto

por Paula Desgualdo
fotos André Seiti (tem mais aqui)

Texto publicado na 4ª edição da revista Efêmero Concreto, out/2013

Mas, hoje em dia, agora, agorinha mesmo, aqui, aí, ali, e em toda parte, poderão os prédios falar e serem entendidos, por você, por mim, por todo o mundo, por qualquer um filho de Deus?! A pergunta é quase a mesma que faz o narrador de “Conversa de bois”, conto publicado no livro Sagarana, de João Guimarães Rosa. Só não está entre aspas, feito citação, porque no lugar de prédios, como deve ter suspeitado o leitor atento, o original traz a palavra bois.

A alteração herege no texto roseano tem um motivo. Ao lado de “Recado do morro”, outro conto do escritor, a narrativa que se inicia com o trecho mencionado serviu de inspiração para que, em 2005, o arquiteto e urbanista Luís Antônio Jorge, professor e pesquisador da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), projetasse a reforma da Casa de Cultura do Sertão, no Morro da Garça, que fica no miolo do estado de Minas Gerais. Antes de esboçar os primeiros traços, Luís estabeleceu um longo e profundo diálogo com os escritos do autor. A compreensão do espaço e da paisagem, o desenho de cada peça de madeira, tudo se deu a partir de uma interpretação do universo poético de Guimarães Rosa e de um confronto entre a obra literária e o lugar no qual ela seria traduzida em obra arquitetônica. Quem visita o centro cultural encontra uma pequena casa restaurada e um pavilhão anexo. A varanda que conecta esses dois ambientes faz uma homenagem à silhueta do morro e ao carro de bois, minuciosamente estudado pelo arquiteto, que acompanhou um mestre carreiro em seu ofício.

E eis que agora, agorinha mesmo, Luís está no centro de São Paulo para falar justamente sobre a relação entre arquitetura e literatura. Nessa vereda de mão dupla, as personagens e os enredos fictícios são referência para a intervenção no espaço, e o espaço, por sua vez, possibilita uma leitura imaginativa digna de trama literária. Aqui não tem sertão, não tem restinga, muito menos boi. Mas, assim como Guimarães Rosa, a literatura extrapola contextos – e também se esconde no concreto da cidade.

Biblioteca no asfalto

Interpretador sagaz de concreto, o arquiteto logo começa a ler em voz alta o Theatro Municipal, aquele edifício arrojado, erguido no nascer do século passado: “Veja toda essa pompa. Os olhos vão pregando nas colunas, na sobreposição delas. Tem uma ordem embaixo e outra lá em cima, tem o dórico e o coríntio, tem figuras de personagens importantes que retratam as artes… É uma narrativa muito marcada pela figuração”.

Traduzido de jeito que bem entendam os outros, parece que o tal do teatro quer mostrar que somos todos letrados, cultos, brancos, europeus até. Na época em que ele foi desenhado por Ramos de Azevedo, tendo como base a Ópera Garnier, de Paris, a arquitetura acadêmica de belas-artes que o caracteriza era considerada indispensável a qualquer cidade que se pretendesse civilizada.

Para Luís, a forma do edifício se assemelha à de um poema parnasiano, que valoriza a beleza, os detalhes, o vocabulário rebuscado e o resgate de temas clássicos. Ornamentado e imponente, o Municipal diz “olha-me!”, como que recitando o primeiro verso do poema de mesmo nome escrito por Olavo Bilac. Tal qual poeta parnasiano, o arquiteto que projetou o teatro se baseia em uma métrica rigorosa, em códigos preestabelecidos.

Se cada estrutura do espaço urbano pode ser lida como texto – seja poesia, seja prosa –, será possível, enfim, pensar a cidade como uma grande biblioteca? O homem silencia pensativo antes de responder: “As boas bibliotecas normalmente são organizadas. Aqui fica difícil ordenar por gênero ou assunto”.

Dom Quixote nas galerias

Já viu prédio que é puro fluxo narrativo? O Copan, de Oscar Niemeyer, é desse tipo. Desde 1950, insinua seus 140 metros ondulantes no recheio da capital paulista. Para o pedestre que chega da calçada, o térreo é uma continuação da rua. Não tem degrau nem entrada nem qualquer obstáculo que atravanque o seu trajeto. Luís faz gosto: “É uma forma muito generosa de convidar o pedestre e não interromper a narrativa urbana”.

No núcleo arquitetônico central de São Paulo, ele gosta mesmo é das passagens, das travessias, das ruas inventadas no meio dos lotes, dos desvios que costuram ruas e dão nó no asfalto, como a Galeria do Rock, na avenida São João, e as galerias Metrópole, na praça Dom José Gaspar, e Nova Barão, na rua Barão de Itapetininga. Esses acessos o fazem lembrar grandes personagens caminhantes da literatura, aqueles tipos urbanos esquisitos e ociosos caracterizados por Charles Baudelaire no livro As flores do mal ou por Edgar Allan Poe no conto “O homem na multidão”. Sem falar em Dom Quixote, o errante de Miguel de Cervantes que transita tanto por territórios físicos quanto pelos fantasiosos.

É verdade que a imaginação não depende só de referências literárias. Os elementos visuais da cidade estão aqui, aí, ali, e em toda parte, para que cada um os interprete como bem entender. Nesse sentido, é uma leitura muito mais democrática, uma leitura inclusive para iletrados, para qualquer um que deixe o pensamento passear quando vê uma janela entreaberta, uma parede descascada, uma porta colorida. A princípio, tudo na metrópole, inclusive uma fachada lacônica e impessoal, pode render uma boa novela. Ou seria uma crônica? Que tipo de texto, afinal, seria a cidade? O apreciador de atalhos reflete: “Tão estranha narrativa, tão truncada, de tão difícil leitura. Que texto seria esse? Um texto incompreensível, em que os conflitos se exacerbam, as vozes se sobrepõem e os desenhos se digladiam”.

Gramática urbana

Como qualquer meio de expressão do ser humano, a arquitetura possui uma linguagem própria. Tanto é que, assim como as ideias e os sentimentos transcritos em frases, ela tem uma sintaxe e até uma semântica. “Estudar a linguagem, nesse caso, é entender a cidade como um sistema organizado de informação, pensar se esse espaço informa e se faz parte de um sistema informativo”, comenta Luís. “É assim o discurso da sintaxe urbana, formado basicamente pelo construído e o não construído.”

Os elementos sintáticos seriam os edifícios, as portas, as coberturas, que se trançam em um baile coeso, como se fosse texto mesmo. Já a semântica, um tema emaranhado para os conhecedores do assunto, está relacionada ao uso do edifício, mas não só isso. Alguns pesquisadores dizem tratar-se do significado cultural que ele tem, de como se insere na história e no cotidiano do lugar. Porque é no dia a dia, em um dia qualquer como hoje, que se desenvolve o enredo da cidade. O nascer, morrer e transitar das personagens – de ferro, concreto, madeira, carne, osso e fantasia – é o que dá o tom da narrativa. E, como vida de caminhante é caminhar, os andarilhos agora pedem licença para seguir seus passos rua adentro, em toada de carro de boi.

Você já leu esse prédio?

A reforma da Casa de Cultura do Sertão, no Morro da Garça, é um entre vários casos em que a ficção extravasa os limites das páginas do livro para se materializar em estrutura arquitetônica. O site Flavorwire listou alguns edifícios erguidos em diversos cantos do globo em tributo a grandes autores e seus escritos.

Na pequena ilha de Martha’s Vineyard, nos Estados Unidos, por exemplo, Steven Holl usou madeira para construir a casa que, em Moby Dick, de Herman Melville, foi feita com ossos de baleia por uma tribo indígena. Já em Barcelona, na Espanha, um conjunto residencial reproduz a fortaleza onde o protagonista de O castelo, de Franz Kafka, não consegue entrar.

Existem ainda versões para Cidades invisíveis, de Italo Calvino – que, aliás, é uma referência de diálogo literário com a arquitetura –, O hobbit, de J.R.R. Tolkien, e Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol. Provas não faltam de que, como cimento e tijolo, a palavra também edifica – em sentido literal.

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Lembranças de um telefone aposentado

(2) 07-10-2011 Um guarda-chuva
Um guarda-chuva (07.10.11)

(3) 07-10-2011 Um  aniversário
Um bolo (07.10.11)

(4) 08-10-2011 Uma preguiça
Uma preguiça (08.10.11)

(5) 17-10-2011 Um corredor
Um corredor (17.10.11)

(12) 28-01-2012 Um edifício
Um edifício (28.01.2012)

(13) 05-02-2012 Um samba sem hora
Um samba sem hora (05.02.12)

(14) 06-04-2012 Um jogo
Um jogo (06.04.12)

(15) 14-04-2012 Uma várzea
Uma várzea (14.04.12)

(21) 07-05-2012 Um olho de gato
Um olho de gato (07.05.12)

(22) 18-05-2012 Um sorriso
Uma janela (18.05.12)

(23) 19-05-2012 Um baile
Um baile (19.05.12)

(24) 08-07-2012 Um tapa-olho
Um tapa-olho (08.07.12)

(25) 08-07-2012 Um pé
Um pé (08.07.12)

(26) 10-07-2012 Uma vizinhança
Um sono (10.07.12)

(27) 11-07-2012 Um silêncio
Um silêncio (11.07.12)

(31) 23-07-2012 Uma cicatriz
Uma cicatriz (23.07.12)

(32) 19-03-2012 Uma quase vista
Uma quase vista (19.03.12)

(36) 17-06-2013 Uma manifestação
Um monte de gente (17.06.13)

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Tchau, tchau, Drummond

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Primeira Carta I

Carta I

“Pois que toda a literatura é uma longa carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos. E já foi dito que não interessa tanto o objecto, apenas pretexto, mas antes a paixão; e eu acrescento que não ineteressa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes o seu exercício.

Não será portanto necessário perguntarmo-nos se o que nos junta é paixão comum de exercícios diferentes, ou exercício comum de paixões diferentes. Porque só nos perguntaremos então qual o modo do nosso exercício, se nostalgia, se vingança. Sim, sem dúvida que nostalgia é também uma forma de vingança, e vingança uma forma de nostalgia; em ambos os casos procuramos o que não nos faria recuar; o que não nos faria destruir. Mas não deixa a paixão de ser a força e o exercício o seu sentido.

Só de nostalgias faremos uma irmandade e um convento, Soror Mariana das cinco cartas. Só de vinganças, faremos um Outubro, um Maio, e novo mês para cobrir o calendário. E de nós, o que faremos?”

1/3/1971
Novas cartas portuguesas. De Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa

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Existe carona em São Paulo

carona

Luciano faz carreto e Patrícia é cabeleireira na Pompeia. Quando trabalhava na Caiubi, ela subia metade do trajeto até o salão a pé, depois pegava um táxi para poupar fôlego e pernas. O cabeleireiro atual fica um pouco mais longe, então o marido dá uma carona para ela no Palio verde antes de transportar as primeiras cômodas, camas e mesas do dia.

Patrícia engravidou há dois anos, mas perdeu o bebê assim que completou 12 semanas. Luciano achou que o destino quis assim, que talvez não fosse mesmo a hora. Disfarçou a tristeza. Filho custa caro, poderiam se planejar melhor antes de tentar de novo, transformar o escritório em um quarto novo para receber a criança. Mas logo chegou a Laís e consumiu em fraldas e noites em claro o tempo e o dinheiro reservado para os planos. Nasceu saudável, cabeluda. Ainda dorme no escritório, que agora tem paredes lilás onde os pais colaram adesivos com desenhos de frutas. Quando a Laís chora de madrugada, Luciano chacoalha Patrícia pelos ombros – ela é ruim de acordar. Enquanto eles trabalham, a tia e a avó se revezam para cuidar da menina.

Nesta terça, Patrícia vai cortar o cabelo de três mulheres e de um homem. Luciano vai fazer duas mudanças.

***

Nos atalhos emaranhados da Lapa, meus pés se perderam. Deixei às costas a avenida conhecida, escolhi a mais estreita e tortuosa das ruas e fui — Senhor, dai a todo ser humano o prazer de se perder com tempo ao menos uma vez na vida. Em algum momento, é preciso parar e perguntar. Oi, por favor, como faz para chegar na Cayowaa? O homem estava de costas para a rua, trancava o portão da casa. Ih, ficou para trás. Coçou a cabeça. É assim, você desce aqui direto… Antes que terminasse a explicação, do outro lado da rua, sai do carro uma mulher loira, trinta e poucos. Entra, moça, a gente vai passar lá perto.

Ele era o Luciano, que faz carreto. Ela, a cabeleireira Patrícia. Carona tradicional, espontânea, desconhecida. Sem cadastro na internet, sem desconfiança. Ainda tem em São Paulo. Patrícia me contou que,  quando trabalhava na Caiubi, subia metade do trajeto entre sua casa e o salão a pé, depois pegava um táxi. O resto da história eu inventei no caminho. Talvez tenha algo de verdade, mas a carona foi curta demais para saber.

Foto: São Paulo, da janela da carona

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